DEMOCRACIA DA INFORMÁTICA - MACKENZIE - PÓS-GRADUAÇÃO ( LATO SENSU ) – 2000
Autor: Carlos Alberto de Andrade Franco Bueno
V – CONCEITOS DA VOTAÇÃO POPULAR - Parte 2.3
2.3. Problemas a serem resolvidos ou diminuídos - S2 - Solução do Problema 2
S2 – Solução Para: Os de pobreza absoluta (classe E) não tem muita ou nenhuma representação
"Solidariedade Negociada
Uma segunda qualificação ao argumento de que a participação pode contribuir para a reprodução de desigualdades se refere à idéia de solidariedade. A discussão sobre se os indivíduos agem ou não motivados por interesses egoístas é antiga nas ciências sociais e políticas. Os adeptos da escolha racional e da ação intencional construiram um complexo edifício teórico baseado na suposição de que os indivíduos agem motivados pelo desejo de maximizar seus níveis de utilidade. Eu mesma tenho sugerido até agora que a principal razão para a mobilização e engajamento de tantas pessoas no Orçamento Participativo é a expectativa de obtenção de benefícios materiais. Mas nessa seção eu argumento que os participantes não são inteiramente desprovidos de espírito cooperativo e de sentimentos de solidariedade. Em última instância, as decisões tomadas pelas assembléias sobre como distribuir os investimentos refletem tanto as motivações egoístas dos mais organizados quanto a preocupação ética em assegurar que os mais pobres não sejam abandonados.
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Perguntei a meus informantes porquê, na opinião deles, alguns dos bairros mais pobres absolutamente não participavam. Muitos responderam que os que não participavam não estavam realmente decididos a mudar a sua própria situação (de pobreza), ou que eles esperavam que o governo fizesse tudo por eles. Poucos ofereceram explicações similares às aventadas por cientistas sociais, de que os custos da participação são bem mais elevados para os mais pobres.
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Mas a ação cooperativa não acontece apenas por razões estratégicas. Os líderes de bairros bem organizados também demonstravam uma preocupação ética em relação aos mais pobres. Uma expressão dessa preocupação era a insistência em tentar convencer os bairros pobres, desmobilizados, a enviarem "ao menos um representante" às reuniões do Orçamento. Em muitos casos, os Foruns Regionais e organizações populares dele participantes enviavam "expedições" a bairros e favelas que não participavam. E nas reuniões de que participei, muitas vezes notei que uma única pessoa vinda de um bairro reconhecidamente carente e desorganizado, tinha o dom de convencer aos outros da necessidade de se investir ali. Um dos Foruns que acompanhei foi capaz de, por três anos consecutivos, estabelecer um quase-consenso sobre os principais projetos que afetavam os bairros mais pobres da região. Em cada um destes casos, apenas uma pessoa dos bairros beneficiados participava regularmente. Estes "representantes solitários" eram capazes de mobilizar apoio para suas causas entre os outros delegados, principalmente pela descrição vívida das terríveis condições prevalentes em seu bairro.
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Meus estudos confirmam um largo espectro de pesquisas que afirmam que os indivíduos não podem ser puramente definidos pelo interesse próprio e que contacto e discussão com outros pode amplificar sentimentos de solidariedade fortemente. Ou seja, quanto mais os grupos participam juntos, com mais frequência atitudes cooperativas irão guiar suas decisões. Em uma região que estudei esse processo era bem claro: os primeiros anos da política de Orçamento Participativo foram marcados por esforços de cada bairro em conseguir o atendimento de suas demandas particulares. Com o tempo, emergiu um grupo de lideranças expressando preocupações mais gerais sobre as carências da região como um todo: eles evoluiram de representantes de bairro a ativistas regionais.
Embora muitos possam dizer que a participação só funciona num contexto de forte solidariedade comunitária, eu contra-argumento que a solidariedade pode também resultar do ato da participação.
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Mesmo assim, após algum tempo de interação com cidadãos de toda a região, eles frequentemente demonstravam preocupação com o bem-estar dos moradores de outros bairros. Esta solidariedade prática--que não requer a eliminação do interesse egoísta--cresceu da experiência de se trabalhar juntos, sugerindo que o teórico da democracia Benjamim Barber estava correto ao afirmar que a participação: "...impõe um confronto permanente entre o eu como cidadão e o `Outro' como cidadão, forçando nós a pensarmos em comum e agirmos em comum." (Barber, 1984:153, minha tradução)” (Abers – 1998 – 16)